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A responsabilidade histórica e
a memória institucional das organizações
Nesta edição, entrevistamos
Paulo Nassar, presidente executivo da Aberje, professor da ECA/USP
e pesquisador, um dos profissionais de maior prestígio
na área de Comunicação Empresarial em nosso
País.
Paulo Nassar fala sobre a responsabilidade
histórica das organizações e destaca o papel
fundamental exercido pelos Relações Públicas
na preservação da memória empresarial. Ele
acaba de lançar, pela Difusão Editora, um excelente
livro a este respeito, intitulado: Relações Públicas
na construção da responsabilidade histórica
e no resgate da memória institucional das organizações,
fruto de sua tese de doutorado em Comunicação na
Escola de Comunicações e Artes da USP. Esta obra
preenche uma lacuna importante na literatura sobre Comunicação
Empresarial brasileira e merece, assim como a entrevista do Paulo
Nassar, a sua atenção.
Paulo
Nassar é graduado em Jornalismo pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (1982), mestre
(2001) e doutor (2006) em Ciências da Comunicação,
na área de Relações Públicas, pela
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de
São Paulo (ECA-USP). Professor da ECA-USP, é autor
de A comunicação da pequena empresa, O que é
comunicação empresarial e Tudo é comunicação.
Organizou diversas obras e publicou mais de duzentos ensaios,
artigos e capítulos de livros. É presidente da Aberje,
que, criada em 1967 para desenvolver o jornalismo empresarial,
em 1983 passou a abarcar um espectro mais abrangente da comunicação
organizacional, mudando, em 1989, seu nome para Associação
Brasileira de Comunicação Empresarial. Membro da
International Association of Business Communicators, da Public
Relations Society of America e do Conselho da Associação
Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional
e Relações Públicas, ele é também
diretor da Revista de Comunicação Empresarial (Aberje).
Comunicação &
Estratégia: O que é e qual a importância
da responsabilidade histórica das organizações?
Paulo Nassar: Responsabilidade
histórica é o conjunto das responsabilidades corporativas
- a comercial, ambiental, social e cultural - examinado ao longo
da história da organização, de seu presente
e de sua visão. Este olhar verifica a coerência dos
discursos produzidos pela empresa frente as suas ações
e comportamentos que produzem a sua história. Frente ao
exame da história e das memórias organizacionais
é possível verificar se o que a empresa está
expressando não é apenas uma jogada de marketing.
Diante de uma comunicação empresarial destinada
a produzir muitas vezes o esquecimento, é preciso resgatar
as memórias não administradas, involuntárias,
proustianas, que formam a reputação das empresas.
Comunicação &
Estratégia: As empresas brasileiras têm investido
na construção da responsabilidade histórica
e no resgate da sua memória institucional? Há alguns
exemplos a destacar? É possível resgatar a empresa
pioneira no Brasil neste tipo de trabalho?
Paulo Nassar: Não
é possível generalizar a responsabilidade histórica
no ambiente empresarial. O discurso empresarial que mais se aproxima
de um comportamento responsável historicamente é
o da sustentabilidade. Temas complexos e vitais para a sobrevivência
da humanidade - como os do aquecimento global, o aumento de pobres
e miseráveis no mundo (apesar dos discursos de responsabilidade
social empresarial), o esgotamento e a poluição
de recursos naturais, a violência que beira a barbárie
e outros - levaram um grupo de empresas a assumir um comportamento
e um discurso preservacionista e de respeito ao meio ambiente,
social e econômico. No entanto, este discurso ainda é
justificado frente aos acionistas com o argumento de que ele vende,
que ele fortalece o preço das ações da empresa.
É um discurso esquizofrênico, como se o acionista
vivesse em outro planeta.
No Brasil, os grandes exemplos
de preocupação com a história e memória
empresarial vêm de empresas de origem brasileira, aquelas
nascidas ainda dentro de um projeto de desenvolvimento nacional,
que têm negócios que geram grande impacto no meio
ambiente, no econômico e no social, entre elas, a Petrobrás,
a Vale do Rio Doce, a Votorantim, a Odebrecht. Os trabalhos destas
empresas fogem da visão histórica celebrativa de
aniversários, das grandes datas e feitos, dos grandes personagens,
e são mais voltados aos depoimentos de vida dos trabalhadores,
ou ainda voltados à gestão do conhecimento gerado
pelas organizações.
É preciso destacar também
que um trabalho de História e de Memória Empresarial
dificilmente tem um objetivo só. De forma abrangente pode-se
dizer que um grande objetivo é o de fortalecer o sentimento
de pertença dos trabalhadores e das comunidades em relação
às organizações. Ou ainda humanizar linhas
de produção e escritórios onde as práticas
voltadas para a alta produtividade e competitividade esgotaram
as pessoas e a confiança delas nos gerentes e na alta administração.
A empresa pioneira no uso da história
e da memória de forma abrangente foi a Odebrecht. Em 1984,
a Odebrecht criou, em Salvador, o seu Núcleo de Cultura
Odebrecht. Iniciativa comandada por Márcio Polidoro.
Comunicação &
Estratégia: Que tipo de materiais são mais facilmente
encontrados nos acervos das empresas que cuidam de sua memória
institucional?
Paulo Nassar: O que mais
se encontra nas empresas são documentos fundadores, entre
eles, livros de atas, fotografias históricas, as primeiras
máquinas. Tudo isso é transformado em livros, vídeos,
materiais de exposições e eventos, e outros acervos
que dão suporte para sites, museus e centros de memórias
e referências, abertos para os empregados, comunidades,
estudantes e visitas.
Comunicação &
Estratégia: Qual o papel da comunicação
e particularmente das Relações Públicas neste
esforço de construção da responsbilidade
histórica das organizações?
Paulo Nassar: Nos anos 1980
e principalmente nos anos 1990, parte importante dos comunicadores
brasileiros foi cúmplices do desaparecimento de acervos
fundamentais para entendermos, entre outros enfoques, a história
da industrialização, do papel estratégico
do Estado em setores como os da Eletricidade, Gás e Telecomunicações.
Em muitos casos, esse papel foi exercido pela mais absoluta ignorância;
por gente inculta que olha a tradição como algo
sem nenhum valor. Nos anos 1990, houve muitos exemplos em que
as empresas jogaram no lixo, em rituais de descarte dos programas
de 5S, documentos vitais para o entendimento de suas culturas
e identidades. Ocorreram ainda aqueles casos em que diante de
novos acionistas, em um ambiente de reestruturação
patrimonial, os comunicadores promoveram uma engenharia do esquecimento
do passado da empresa e de seus fundadores.
Diante disso, proponho para o
comunicador, como metáfora de seu papel, a figura de Jano,
aquele deus romano, que abria portas, pontes, diálogo entre
a tradição e inovação. De Jano vem
o mês Janeiro. Em um mundo digital, podemos pensar no Jano
digital.
Comunicação &
Estratégia: Quais são as perspectivas futuras
para o trabalho de resgate da memória institucional das
organizações?
Paulo Nassar: O trabalho
de documentação da memória institucional,
como um campo híbrido, onde ocorram miscigenações
entre os conhecimentos e as práticas dos campos da História,
Jornalismo, Relações Públicas, entre outros,
vai se fortalecer dentro das organizações. Ele representa
uma das formas das empresas minimizarem a corrosão da confiança
da sociedade e de suas redes de relacionamento em relação
à empresa e seus gestores. Os processos de história
e a memória empresarial podem fortalecer o sentimento de
pertença (o pertencimento) que a sociedade e os públicos
de relacionamento têm em relação à
empresa. Uma outra tendência é termos os trabalhos
de história e memória empresarial desidratados de
seu sentido humano. Explico: a história e a memória
enquadradas em uma lógica do entretenimento, da curiosidade
mórbida e paparazzi, algo morto que lembra um pouco os
museus de cera.
Comunicação &
Estratégia: Como a Aberje tem contribuído para
reforçar a importância deste trabalho e para divulgar
as iniciativas bem sucedidas?
Paulo Nassar:
A Aberje é pioneira no trabalho com a História e
a Memória Empresarial. Ainda em 1999, a Aberje - preocupada
com questões trazidas pelas reestruturações
produtivas e patrimoniais brasileiras, entre elas as privatizações
e as centenas de fusões e aquisições de empresas
- promoveu, em 23 de agosto, o I Encontro Internacional de Museus
Empresariais, onde reuniu representantes de empresas como a Telefônica,
Companhia Vale do Rio Doce, Brasmotor, Odebrecht, Asea, Chocolates
Garoto, além das instituições Memória
e Identidade, Museu da Pessoa e Fundação Patrimônio
Histórico da Energia de São Paulo. Em 2000, a Aberje
trouxe da Inglaterra, como palestrante, o historiador Paul Thompson,
professor e pesquisador da universidade de Essex, autor do clássico
A voz do passado. De lá para cá, a Aberje tem promovido
permanentemente congressos, encontros e grupos de estudos voltados
para o tema da História e da Memória. Em 2004, publicou
o livro Memória de empresa: história e comunicação
de mãos dadas, a construir o futuro das organizações.
Neste ano, em maio, inaugura, com investimentos iniciais, orçados
em mais R$ 500.000,00, o seu Centro de Memória e Referência,
onde reúne, em instalações especiais, um
acervo constituído de documentos, fotos e material audiovisual,
dos últimos 50 anos da comunicação empresarial
brasileira. Além de uma biblioteca constituída inicialmente
com mais de 1000 títulos da bibliografia fundamental da
comunicação e das relações pública
brasileira e internacional. O CMR da ABERJE abriga também
o Instituto de Pesquisas da ABERJE, que desde 2001, vem realizando
pesquisas sobre o campo da comunicação empresarial.
O CMR da ABERJE é gerenciado por um grupo de comunicadores,
bibliotecários e historiadores especialmente contratado
para a sua missão.
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