
O
PAC e o compromisso das agências de comunicação
O
Governo Lula acaba de anunciar, com grande pompa, o seu Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC), com o objetivo,
segundo ele, de estimular os negócios e, em consequência,
aumentar o nível de emprego, garantir a sustentabilidade
e a governabilidade. Na prática, todos sabemos que o PAC
é resultado não apenas de uma política pública
bem engendrada mas de um lobby formidável que tem como
propósito maior evitar problemas sérios num futuro
próximo (como o apagão energético, a crise
flagrante da infraestrutura (portuária, ferroviária,
rodoviária) e outros também contundentes, como a
crise tributária, previdenciária e política.
Para
saber quem foram os grandes vencedores, basta perceber quem anda
rindo a toa. Em geral, são empresários de determinados
setores que vêem com o PAC a possibilidade de aumentar os
seus negócios. Pouco se fala em educação
(essa sim fundamental para um crescimento sustentável e
socialmente justo), em saúde (o surto dramático
de dengue no Mato Grosso e a calamidade dos hospitais públicos
exibe a verdadeira cara do nosso desenvolvimento) e há
um risco imenso de agressão ao meio ambiente (também
apenas marginal na montagem do PAC).
A
nossa preocupação, enquanto comunicadores, deve
ser a de debater qual o nosso papel nesse momento, já que
certamente seremos convidados ou envolvidos nesse processo.
As
primeiras leituras não têm sido favoráveis.
Setores da chamada indústria da comunicação
têm evidenciado apenas o interesse em aumentar os negócios
e não colocam outros parâmetros para análise
que não seja a saúde dos seus cofres.
Vejamos
apenas dois casos.
1)
Grandes agências de publicidade estão festejando
a medida porque acreditam que, psicologicamente, este estímulo
ao crescimento acabará seduzindo os anunciantes que deverão
investir mais. Não se notou, até agora, qualquer
preocupação com o impacto desse possível
crescimento, como se a função das agências
fosse apenas promover o consumo a qualquer custo. O importante,
devem pensar elas, é que os anunciantes gastem dinheiro
e que a gente seja favorecido por essa medida.
2)
Ainda muitas agências de propaganda estão preocupadas
porque existe uma possibilidade de os governos (estaduais ou federal)
reduzirem as verbas de publicidade, o que certamente as penalizará.
O interessante é que algumas vezes se somam a esta choraminga
veículos de comunicação, assustados com a
possibilidade de perderem receita , se for reduzida a publicidade
oficial. Santa hipocrisia e cinismo! Em geral, são esses
mesmos veículos que denunciam a farra governamental com
gastos em propaganda e que andaram botando a boca no trombone
no episódio (que não se encerrou) do valerioduto.
A
lógica é: as operadoras de celulares querem duplicar
o número de aparelhos em mãos dos brasileiros? Ótimo,
vão investir em propaganda e os nossos bolsos continuarão
cheios. As empresas de papel e celulose, as usinas de álcool,
as empresas agroquímicas, as mineradoras vão instalar
novas plantas industrias? Excelente, porque teremos serviço
por um bom tempo.
Preocupação
com o descarte das baterias dos celulares? Nenhuma. Preocupação
com o impacto ambiental destas plantas industriais? Nenhuma. Preocupação
com o consumo desenfreado? Nenhuma.
Os
comunicadores sérios, as agências sérias deveriam
incorporar novas preocupações. Veículos responsáveis
deveriam estar preocupados com o dinheiro público que é
drenado para atender interesses políticos e pessoais.
Há
um discurso e uma realidade que não estão em sintonia.
Há uma hipocrisia empresarial que não deve merecer
nossa adesão. Estamos atravessando uma fase de descompromisso
ético. Agora, a moda é sujar tudo e plantar árvores
como penitência. Até a Abril que pouco tem se preocupado
com o meio ambiente (a revista Exame é uma apologia aos
negócios ambientalmente não sustentáveis!)
entrou nessa para "limpar a imagem".
Como
diz o caboclo, "Deus está vendo" e não será
enganado facilmente.
É
preciso não apenas debater formas de estimular o crescimento,
mas sobretudo perguntar que crescimento interessa ao país?
Não há dúvida que o aumento do consumo, de
qualquer consumo, nos empurra para trás. Mas, novamente,
muita gente, muita agência, muitos veículos vão
continuar ganhando dinheiro. Para eles, é, no fundo, a
única coisa que interessa.
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