Volume 1, Número 1, Dezembro de 2004
Comunicações
O boato como mídia no gerenciamento de crises

Heloiza Matos
Professora Doutora Livre-Docente do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

 

I – Como reconhecer o boato ?

A noção de verificação não está separada de quem a faz. Se não confiamos numa informação, somos levados a verificar sua veracidade. Mas isto introduz uma dose de subjetividade ao processo.

O boato tem assim, uma primeira característica: é uma informação que circula e é sempre não verificável porque quase sempre invoca o testemunho direto: um amigo, um parente ou porteiro, ou motorista de táxi. Enfim, a testemunha adquire o estatuto de um repórter espontâneo desinteressado que decidiu comunicar o que viu e ouviu.

Esta hipótese (da informação não verificada) resulta num impasse lógico e sua impossibilidade de distinguir o boato de uma enorme quantidade de informações transmitidas oralmente ou pela mídia.

Assim, os critérios de informação não verificável e falsa acabam por descobrir um preconceito e uma intenção moralizante. Os boatos não incomodam porque são falsos. Acredita-se nele porque têm um fundo de verdade, fato comprovado pelos "vazamentos de informação" (acidentais ou propositados como no caso de balões de ensaio).

Os boatos incomodam porque são informações "paralelas" que correm a margem da versão oficial, seja ela do jornalista como interprete do fato ou da autoridade que emite a versão oficial.

Um outro impasse conceitual do boato está em torno da definição de Shibutani que foi retomada por Allport: "a quantidade de rumor circulante é igual a importância do assunto, multiplicado pela ambigüidade da informação e a ansiedade gerada pela circunstância.

Esta tese também pode ser questionada. Apesar da ligação entre pessoas públicas e boato, porque o público se mobilizaria em torno de um produto de consumo?

Seria a associação com a marca que levaria o consumidor a se importar com o iogurte, o pneu do carro ou a preservação do meio ambiente? E não poderia ocorrer o contrário? Não seria um boato que tornaria um produto banal (um refrigerante, um iogurte) a função de dar-lhes importância é mistério?

Quanto a ambigüidade, pode-se admitir que os "símbolos" e os "logotipos", poderiam gerar ambigüidade e portanto serem trampolins para o boato.

Assim, pode-se admitir que o boato existe sempre que o público queira compreender um fato e não tem as informações adequadas para tal. Então o boato poderia ser tomado como um mercado negro de informação. Retomando a definição de Shibutani, estamos diante de uma informação (importante e ambígua) gerada a partir de um acontecimento.

No entanto, pode ocorrer o inverso: o boato não se origina do acontecimento; ele cria o acontecimento.

As duas fontes do saber cotidiano são as mídias e a informação interpessoal, o "disse-me disse". O ouvi dizer. O boato é a voz do grupo e muitas vezes esta voz pauta a mídia.

O boato é assim uma mídia que envolve vários níveis de conversação: entre duas pessoas, as discussões em grupo, os debates, as confidências. Quando uma notícia proveniente de uma fonte (não oficial) é veiculada de boca a boca e circula em cadeia com uma forte propagação, estamos diante de um "boato puro" que cumpre um ciclo de vida que se amplia, agudiza e retrai até ao esquecimento.

Se a mídia acolhe o boato e não o trata como tal, (apura a informação, checa fontes, esclarece os dados ambíguos), a mídia enobrece o boato informatizando-o e mediatizando.

II. Atualização do conceito de boato: novas mídias para a difusão do boato

 A primeira etapa da ciência é em geral a classificação. Na teoria do boato, foram feitas várias classificações:

a) por temas (saúde, conspiração, ameaças), o que não passa de uma classificação de temas relacionados com as motivações humanas e, o mais complicado, baseados no conteúdo aparente dos boatos;

b) estudo dos vocabulários simbólico porque o significado é mais importante do que o sentido;

c) Por origem (fontes) eles podem ser observados como boatos espontâneos ou provocados. No primeiro caso, o grupo que participa de um acontecimento, na falta de explicações oficiais, rápidas e satisfatórias, as pessoas montam sua versão pessoal e coletiva da história.

Os boatos provocados se inserem na categoria dos boatos políticos os empresariais e os de marketing. São difundidos pela concorrência, pelos grupos desestabilizadores ou investigadores do impacto de uma medida ou político. Os balões de ensaio se inserem neste tipo são comuns também em casos de tragédias naturais ou provocadas.

Partindo da origem – espontâneo ou provocado, os boatos podem ser classificados em 6 tipos:

1)os que partem de um acontecimento real, divulgado pela mídia, incluindo fontes oficiais, mas nem por isto livres de ambigüidades;

2) o segundo tipo – acontecimentos provocados – considera-se a introdução intencional e voluntária de protagonistas, buscando tirar partido de um acontecimento. Por exemplo: explicar um acontecimento como forma de desviar a atenção da opinião pública para um fato real e mais importante;

3) Neste caso o boato não parte de um acontecimento, mas de um detalhe, um indício considerado de importância especial por um grupo social. Ou seja, o grupo deve estar muito sensível e atento para transformar o indício em prova. Ex: aparência satânica do logotipo da Procter e Gamble, os grupos religiosos fundamentalistas acreditam na existência física do diabo e estão permanentemente atentos a seus sinais;

4) É da mesma natureza do boato anterior, só que provocado. Normalmente coincide com uma discussão ou preocupação social num determinado momento: seqüestros (violência) alimentos (transgênicos) propriedades cancerígenas de remédios , alimentos e ou subst6ancias tóxicas;

5) O quinto tipo de boato surge do nada. Ë fruto da imaginação popular. Ex. ET de Varginha. Estes boatos têm sido estudados pelos ingleses e dos países do leste europeu e receberam o nome de "lendas urbanas ou contemporâneas";

6) O sexto tipo é intencional e está ligado a uma visão paranóica (tudo seria um complô) ou angelical (tudo é retórica passageira). Como a natureza do boato é a falta de controle (das fontes, dos dados e da sua propagação), é possível acabar com um boato?

Quais os meios a utilizar? Os desmentidos são eficazes? Não há receitas. Um diagnóstico preciso é um começo do caminho.

Armadilhas do desmentido

o desmentido é um desmancha-prazeres. Ele desativa o imaginário para dar lugar a banalidade da realidade. Na mídia, a necessidade de desmentir é vista com restrições e por isto ganha espaço limitado e escondido. No entanto, quando o desmentido vem de uma fonte oficial, é uma informação obrigatória e quanto maior a implicação social do fato, maior a possibilidade da informação adquirir peso e importância.

Repetição

A força do boato é a repetição. No entanto, no caso da difusão do desmentido, a mídia costuma vê-lo como informação obsoleta. Se não for tratado pela mídia com ética e responsabilidade, será preciso pagar pelo esclarecimento. E pagar duplamente: explicação pública de um deslize e compra de espaço publicitário.

Fuga dos objetivos

Uma das contradições das campanhas de persuasão é que elas parecem atrair os que já estão convencidos, mais do que os outros que ainda não foram. Isto significa que costumamos evitar as informações que questionam nossas convicções e opiniões.

No exemplo da Procter Gamble, entre os americanos que conheciam o boato e não acreditaram nele, 83% declaram ter lido, visto e ouvido os desmentidos.

O paradoxo é então: "a mídia que mais contribui para a fuga de objetivos é que melhor veicula a mensagem desmentida.

III. Percepção e Seleção das Mensagens

Os modos de recepção da mensagem são sempre seletivos. Estudos psicológicos indicam que na recepção das mensagens os conceitos concretos são memorizados mais facilmente que as noções abstratas. Ex: o produto X não é cancerígeno. A negação é esquecida rapidamente e a associação entre o produto e a propriedade que lhe foi atribuída, especialmente se for negativa.

Em toda campanha de desmentido, existem duas ações de comunicação: o boato é transmitido para aqueles que não o conhecem e ao mesmo tempo se tenta influenciar aqueles que sabem dele. Isto coloca uma questão:a simples refutação seria tão poderosa a ponto de não contaminar aqueles que descobrem o boato?

O pressuposto teórico dessa observações acima –seleção de mensagens e contágio, levantam as seguintes questões: a opinião que exprimimos num determinado momento depende das informações associadas à pessoa , instituição ou produto. Assim, o ato do desmentido deve ser suficientemente convincente para que a informação negativa não fique colada à marca ou slogan do produto ou instituição.

As vítimas do boato, em geral, registram queixas. A maioria dos boatos não tem fonte, pelo menos identificável.

As recompensas são igualmente míticas.

Assim, atribuir o boato a uma pessoa ou um grupo, permite avançar além da simples reputação. A reputação é defensiva.

Conclusão

Até agora, o estudo do boato foi baseado numa concepção negativa: falso, fantasia, fruto da irracionalidade e da imaginação.

Como evitar os boatos? Deixando a mídia como única fonte de informação?

O boato não é necessariamente falso. Ele é não oficial e quase sempre contesta a realidade oficial, propondo outras versões.

A concepção negativa que faz a associação entre o boato e a falsidade é de caráter tecnológico. Só existe boa comunicação quando há controle e mínimo de ruído. Rumor? Vozes paralelas?

O boato pode propor um outro valor: comunicação livre, mesmo que a confiabilidade fique em segundo plano.