Wilson da Costa Bueno*
A maioria das organizações,
em particular as de médio e grande porte, edita um
ou mais jornais ou revistas, voltados para os seus públicos
internos e externos. Na prática, a existência
deste tipo de publicação se confunde mesmo
com a própria história da comunicação
empresarial brasileira. Basta perceber que a maior entidade
da área - ABERJE - Associação Brasileira
de Comunicação Empresarial, que completou
recentemente seus 40 anos, ainda mantém a sigla original
que significa Associação Brasileira de Editores
de Revistas e Jornais de Empresas. Há algumas décadas,
não se falava ainda em comunicação
empresarial, mas já circulavam publicações
de prestígio.
O fato de os jornais e revistas de empresa existirem há
um bom tempo não quer dizer no entanto que eles já
atingiram um patamar aceitável em termos de forma,
perfil e conteúdo e as razões para isso podem
ser facilmente apontadas.
Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a gestão
empresarial em nosso País ainda está tipificada
por traços de autoritarismo (os chefes falam mais
baixo, mas continuam mandando como sempre fizeram na maioria
das organizações) e a cultura de muitas organizações
associa livre circulação de informações
com risco ou ameaças. Neste sentido, as publicações
empresariais acabam convivendo com a censura e a auto-censura
e mesmo em empresas consideradas modernas a pauta é
controlada, o texto é vigiado e a pluralidade de
idéias e opiniões desestimulada a todo momento.
Em segundo lugar, o conceito de jornal ou revista que vigora
é singular porque distinto do usual (não deveria
ser assim mesmo, indagam os executivos mais conservadores?).
A divergência, a polêmica, a controvérsia
é colocada de lado e postula-se um conteúdo
que tem mais compromissos com a propaganda institucional
(quando não mera promoção dos proprietários
e chefias) do que com a chamada informação
jornalística. O texto é adjetivado ao extremo
e as pautas muito frias e sem graça como pão
amanhecido e estrategicamente suspeitas como coxinha de
rodoviária. Existe um sem número de temas
tabus e, para muitos editores ou jornalistas, fica mesmo
difícil fugir do lugar-comum: os assuntos remetem
para pautas fechadas que não convidam para a leitura
ou para a reflexão.
Finalmente, os jornais e revistas de empresa são
produzidos a partir de um equívoco formidável:
não levam em conta as demandas e as expectativas
de seus públicos de interesse. Em muitas organizações,
uma mesma publicação é encaminhada
para os públicos internos e externos, sem considerar
que funcionários (não podem ser tomados como
iguais porque uma organização de médio
ou grande portes - vamos dizer uma universidade por exemplo-
tem funcionários com vários perfis), jornalistas,
acionistas, clientes, parceiros etc requerem canais de relacionamento
distintos. Por comodismo ou falta de visão (a segmentação
dos públicos e veículos ainda não é
realidade para a maioria das empresas), elas continuam produzindo
o "jornal bombril", aquele que serve para mil
e uma utilidades. A comunicação moderna deve
ser personalizada, não pode partir do pressuposto
de que um mesmo assunto interessa a todo mundo porque há
visões de mundo e experiências diferentes de
um público para outro. Mesmo que esse seja o caso
(e há situações em que um tema é
de interesse universal), o tratamento dado ao assunto deve
variar em função do perfil de cada público.
Essa é a essência das editorias, dos cadernos,
dos veículos segmentados etc e todo jornalista deveria
saber (alguns empresários e editores de publicações
empresariais parecem habitar outro universo da comunicação)
que de uma mesma pauta resultarão matérias
diferentes se os veículos tiverem linha editorial
e perfil de público distintos. A cobertura da compra
do ABN (Real para os íntimos) pelo Santander será
tratada de forma particular no Valor Econômico e no
Diário do Grande ABC e poderá estar fora de
cogitação num jornal de bairro.
Os jornais de empresa pecam porque estão muitas
vezes atrelados a instâncias (departamentos, diretorias)
que têm uma "cultura de comunicação"
bastante singular, como o RH (que em muitas organizações
ainda se reduzem "à chefia do pessoal")
, o marketing (de onde nasceu o conceito equivocado de endomarketing
para a comunicação interna) e até mesmo
o Departamento Jurídico (dá para imaginar
o que pensa a empresa quando pendura aí a comunicação
e o jornal de empresa!)
Está na hora de rever velhos conceitos e de profissionalizar
de vez as publicações empresariais, dando-lhes
a importância e o valor estratégico que deveriam
ter. Quando os jornais e as revistas empresariais são
concebidos apenas para legitimar determinadas situações,
para lustrar o ego de empresários e diretores e não
para cumprir sua verdadeira função de informar,
provocar o debate, podem (e isso tem acontecido) causar
efeito contrário ao pretendido. São descartados
sem dó, não têm legitimidade/credibilidade
enquanto veículos informativos e despertam aquela
sensação desagradável de "pau
mandado", enfim não funcionam.
Os jornais e revistas empresariais seriam melhores se os
seus executivos e editores resolvessem sacudir a poeira
(tem publicação que cheira mofo e, se duvidar,
tem até traça!), incorporassem inteligência
ao seu negócio e abrissem mão desta censura/auto-censura
que não faz mais sentido na sociedade que prega a
chamada gestão do conhecimento.
Os jornalistas e sobretudo os funcionários das empresas
sabem como é difícil produzir e ler a maioria
destas publicações, insossas, insípidas
e inodoras. Se os jornais e revistas refletem a cara das
organizações que os editam, só há
uma conclusão: elas são enjoadas e sem graça
e bota enjôo nisso.
Em tempo: certamente há exceções,
mas, como sempre, elas confirmam a regra.
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* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor
do programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto
Comunicação e Pesquisa.